STEPHANIE MARINKOVIC E DANILO RODRIGUES FAZEM COZINHA DE AFETO EM FORMA DE DRINKS NO FIFTY-FIFTY COCKTAIL BAR
Por Sergio Crusco
A pequena Stephanie era alucinada por bombom de chocolate com cupuaçu. Numa viagem ao Pará, terra natal de seu pai, ganhou o presente que toda criança de 8 anos, maluca por chocolate e cupuaçu, sonharia: um pacote de um quilo do doce, que prolongaria o prazer de morder os bombons por sabe-se lá quantos dias de delírio.
O carregamento de milhões foi esquecido no aeroporto. “Chorei o voo inteiro, de Belém a São Paulo. Imagina perder um quilo de bombom de chocolate com cupuaçu! Foi um trauma de infância.”

(Foto: Rubens Kato)
Corta para Alter do Chão, ano 2023. Stephanie Marinkovic, mulher feita e dona de um currículo poderoso na coquetelaria brasileira. Com seu par romântico, o também mixologista Danilo Rodrigues, engatou trabalhos no Pará. Viajaram várias vezes para o norte do país e os dias na Ilha do Amor, de nome bastante apropriado, terminavam com pastel, sorvete e bombom de cupuaçu. A calórica vingança ao trauma começava a ser engendrada de um jeito mais doce do que imaginaria a menina.
Para completar a desforra contra o esquecimento do passado, Bombom de Cupuaçu é um dos drinks mais pedidos da nova carta do Fifty-Fity Cocktail Bar, lar etílico de Stephanie e Danilo em São Paulo. O coquetel de rye whisky, amêndoa de cacau, licor de cupuaçu, manteiga de cacau e bitter de chocolate foi um dos muitos desafios a que a dupla se propôs desde a abertura do bar. “Queremos mostrar que coquetelaria pode ser afetividade. As pessoas também lembram de bons momentos provando um drink e trouxemos isso para o nosso bar, que é mais cozinha do que bar, usando os ingredientes de receitas que gostamos”, diz Stephanie.

(Foto: Rubens Kato)
Nem sempre tudo ocorre exatamente como o que fora planejado. Uma das pesquisas mirava o sabor de croissant de noz pecã com geleia de framboesa. O resultado, bastante inesperado, fez com que Stephanie e Danilo exclamassem ao sentir o aroma da mistura de bourbon, framboesa, Jerez Fino, manteiga noisette e noz pecã: “Tem cheiro de Frutilly!” Imediatamente, o coquetel foi batizado com o nome do sorvete que, mais uma vez, remetia à infância dos dois. E à de muita gente.
Embora dotados de um arsenal de técnicas que envolve clarificações, fat wash, decantação, macerações, infusões, confeitaria e outras armas da mixologia, às vezes é complicado chegar ao perfil desejado. No trabalho em parceria, rolam crises momentâneas, que podem atingir a temperatura de um “ah, então faz você!” meio enviesado. Mas tudo volta à paz quando o projeto do coquetel acontece. “A Stephanie tem ideias mirabolantes e partimos para tentar fazer com que as coisas funcionem”, diz Danilo.

(Foto: Rubens Kato)
Danilo passou por um processo curioso, em que certa tendência para a autossuficiência foi suplantada pelo convívio e pelo prazer de trocar de experiências com Stephanie. “Sempre fui de fazer tudo sozinho, só que, ao longo de cinco anos de convívio, percebi que é bom ter o confronto de uma ideia diferente. Isso faz com que eu veja as coisas de uma perspectiva que eu não teria.”
“O resultado é sempre mais importante do que a técnica que utilizamos ou que o processo de elaboração”, completa Stephanie. “A intenção é ser simples, no final das contas. Sempre mostrar, nas receitas, um pouco do que sentimos e vivemos. E conectar as pessoas com sabores que elas possam identificar.”

(Foto: Rubens Kato)
Nesse sentido, Manga com Sal tornou-se outro hit da casa, com tequila, soda de manga, vermute seco e wasabi. “Tem tudo que muita gente gosta: fruta, acidez, um toque lático e outro de vinagre”, explica Stephanie sobre o drink que é acido, doce, tem uma leve picância e é ultrarrefrescante.
Outros coquetéis da carta têm caráter mais austero e definitivamente gastronômico. Provando que o casal não está fechado em sua relação criativa, novas ideias surgem no ambiente do Fifty-Fifty. E vêm da cozinha, ora essa. Foi o chef Key Kurihara quem sugeriu um coquetel com aspargos, que harmonizasse com alguns de seus pratos. Assim nasceu O Aspargo, com destilado japonês awamori, whisky irlandês, licor de laranja, aspargo e azeite extra virgem.
Outro drink que vai pelo caminho salino é Nigiri, com blended scotch, saquê, cachaça, akasu (vinagre vermelho japonês), dashi e wasabi. O trago, seco e carregado de umami, casa muito bem com alguns dos pratos criados por Key, como o Pork Belly (panceta glaceada com molho de pimenta agridoce e picles gari, servido com arroz coberto de tempero furikake e com algas, para fazer a trouxinha). Ou o suculento Udon Carbonara (macarrão udon, guancialle, pecorino e gema de ovo).

(Foto: Rubens Kato)
Fifty-Fifty Cocktail Bar / Rua Deputado Lacerda Franco, 596, Pinheiros / @fiftyfifty.bar
