Um passeio com Chula Barmaid pelos bares do Centro de São Paulo
Por Sergio Crusco / Fotos: Gus Loren
Primeiro ato: Piton Lab bar
Foi Chula Barmaid quem lançou a proposta: “Vamos fazer um passeio pelo centro de São Paulo, sair por aí visitando os bares?” Em se tratando da bartender argentina (quase brasileira) Chula, desejo é ordem. E vontade. Quem não quer sair por aí com ela, pessoa divertida, inteligente, animada, loquaz, que entende dos borogodós e paranauês da coquetelaria? Tudo o que amamos.
Embora tenhamos tentado estabelecer ordem no roteiro, nem sempre as linhas retas são o melhor caminho entre vários pontos. O programa inicial previa o Brim Café, de que Chula é sócia, como partida para nosso bar hopping. Os aguaceiros que andavam caindo, no entanto, causaram danos às instalações elétricas do Brim, que teve de ficar fechado por dois dias até que a encrenca na fiação fosse resolvida.

Mas não há tempo ruim com ela, embora a chuva houvesse dado uma trégua (gracias!) e a tarde permanecesse cinzenta. Proponho atravessar a Avenida São Luiz e começar o trajeto no Piton Lab Bar, subsolo da Galeria Metrópole. “Ainda não conheço, vamos lá!”, responde de imediato. Imediatamente também, Chula se entrosa com o pessoal que trabalha no bar, com a gerente, Débora Piton, irmã do bartender Pedro Piton, sobrinho do estilista Saulo Piton – todos os Pitons que colocam o café-loja-bar para funcionar.
Visita o ateliê de Saulo, no mezzanino do bar, encanta-se com algumas roupas, ainda inacabadas, que fazem parte da nova coleção de chiquérrimas peças únicas da grife Piton Lab. Prova o coquetel Brownie Manhattan, fruto de um empreendimento passado da dupla Débora-Pedro: fazer brownie no período da pandemia. Mesclada ao bourbon na reinvenção do coquetel clássico, o drink ganha novo sentido para a Chula. “Costumo almoçar no Alecrim [restaurante buffet na Metrópole] e agora já sei onde vou ‘comer’ a sobremesa”, diz ela, levantando o copo.

Segundo ato: Fel
Poucos minutos de passeio nos fazem ter certeza de que a Chula que conhecemos no bar, efusiva e falante, é a mesma que caminha ao nosso lado. Estabelece conexões imediatas e encontra assunto com quem quer que seja, incluindo desconhecidos. Beija, abraça carinhosamente, elogia, ri, faz piada, mostra interesse genuíno pelos assuntos do outro, estendendo sílabas com entusiasmo e sotaque forte: “Queee-riii-dooo!”
“Vejam só o homem mais elegante dessa cidade!”, diz Chula ao ver o chefe de bar Fábio Dias, que dá um tempo do lado de fora do Fel, no calçadão do Copan, um pouco antes do lugar abrir, às 17h. Chula decide provar um coquetel mais fresco, para rebater a potência do Brownie Manhattan. Deixa a escolha a escolha a cargo de Fábio e ele sugere De Rigueur, com scotch, xarope de mel e suco de grapefruit. O aconchego do balcão do pequenino Fel, que começa a receber os primeiros clientes da tarde, permite que conversemos com calma e solto a pergunta que sempre gosto de fazer a quem trabalha no ramo da hospitalidade: “Como você entrou no mundo do bar?”

A história é muito parecida com a de tantos outros jovens: “Fui trabalhar como garçonete em Buenos Aires para ajudar a pagar meus estudos de teatro. O primeiro atendimento foi um desastre, derrubei a bandeja, com cerveja e tudo, em cima do cliente. A dona do lugar era muito legal e, em vez de me mandar embora na mesma hora, me colocou no bar para fazer Frozen Daiquiri. Talvez imaginando que ali eu oferecesse menos perigo ao clientes e a mim própria”.
No bar, cara a cara com os fregueses, teve de superar aquele que considera um dos principais traços de sua personalidade: a timidez. “No fundo, sou muito introvertida”, diz. No que qualquer um que a conheça, ao menos superficialmente, exclama: “Tímida?! Como assim?!” Ela explica: “Percebi que bar tinha a ver com o teatro, passei a encarar os clientes como plateia e criei uma personagem para atender as pessoas”.

Um amigo a ajudou nessa construção: trocou uma letra de Chuli, apelido original de Cynthia Soledad. Ela acrescentou um “sobrenome” cringe para criar Chula Barmaid. “Encontrei um lugar para me comunicar”, diz Chula, nascida em Córdoba, que começou a estudar teatro antes dos 10 anos de idade, por sugestão da mãe, disposta a encontrar uma forma de furar a patológica bolha de timidez da filha.
O caminho não foi suave. Houve momentos de crise em que personagem e ser humano se confundiram. “A personagem parecia ser mais forte do que eu. Juntou tudo e, no meio dessa confusão, acabava me questionando sobre quem de fato eu era. Foi conveniente inventar essa persona para que eu pudesse me expressar no meio de tanta gente, mas isso me deixou chateada por um tempo, principalmente na virada dos 20 para os 30.”
Chula, enfim, fez as pazes consigo e com a pessoa que bolou para enfrentar o mundo. Entendeu, mais tarde e madura, que não se tratava de uma farsa. Todas eram ela. O teatro que fez de si a ajudou a revelar outros aspectos e talentos escondidos ali dentro. O teatro, em si, fez com que entendesse sua profissão e o relacionamento com as pessoas de uma maneira distanciada e, paradoxalmente, mais próxima.

Terceiro ato: Bar dos Arcos
Saímos da intimidade do Fel para o Theatro Municipal. A barra da primeira casa profissional de Chula no Brasil, o Bar dos Arcos, volta a ser comandada por ela, que criou uma carta de coquetéis com base em diferentes culturas da América Latina. É hora dela nos oferecer um drink, o frutado e adocicado Cholitas, com cachaça em infusão de amendoim, vodca e chicha morada (suco de milho roxo) clarificada em sorvete de milho.
Depois de Chula rodar por Uruguai, Índia, França e Espanha, em 2018 o empresário Facundo Guerra a convidou para assumir a autoria e a chefia de bar do grande projeto que transformou os porões do teatro fundado em 1911 num dos lugares mais disputados da noite de São Paulo. “Disse a ele que não falava uma palavra em português e que, portanto, não podia assumir um trabalho daquele tamanho.”

Facundo foi esperto. Não deu um pio. Apenas convidou Chula a conhecer o lugar. “Entramos pela porta dos funcionários do teatro e, quando me dei conta, estávamos no palco. O hijo de puta me convenceu, não havia como não me apaixonar por aquilo.” O contrato previa seis meses da presença da barmaid na cidade. Ela acabou ficando por quase três anos nos Arcos.
Quarto ato: Cortina
Voltou à Argentina, passou um tempo no Equador e, antes que se completasse um ano de sua ausência, deu com os costados de novo no Brasil, para liderar outro grande e sacudido bar, o Cortina (então, Cineclube Cortina). Em breve, a cidade veria um tsunami de Chula por bares e restaurantes. Assinou cartas para Flora Bar, Atlântico 212, Leila, Clementina, La Casserole e seu anexo Infini, Chou, Osteria Nonna Rosa, Brass Brew, Futuro Refeitório… Em determinado momento, era mais fácil perguntar que bares de São Paulo não tinham coquetéis criados por ela.

Quem anda pela noite e presta mínima atenção ao seu trabalho, em lugares tão diferentes, se dá conta de que, em cada endereço, há um perfil diferente de coquetelaria. O que pode, numa análise apressada, parecer falta de estilo, parte da observação cuidadosa que ela faz de cada situação. Mais uma vez, o teatro lhe dá régua e compasso não apenas para pensar o estilo dos drinks, mas para entender todo o conjunto como um espetáculo.
Sua atuação profissional no teatro, em Buenos Aires, não se deu frente à plateia. Chula foi preparadora de atores, trabalhava ao lado de diretores e autores para arrancar, dos intérpretes, a carga piscológica necessária e as intenções corretas para cada papel. “Aprendi a ler as pessoas e consigo ter uma visão geral de quem é o cliente que vai ao bar, interpretar o que os proprietários esperam e orientar quem trabalha, perceber em que posição cada pessoa atua melhor. Cada casa tem sua identidade e, para cada uma, faço um desenho. Cada uma tem seu texto, como nas peças de teatro.”

A essa altura, no Cortina, a cena é feérica. A música pulsante, a grande tela que dispara mil imagens, uma turma animada que homenageia o rapper Pitbull com carecas de látex – tudo convida à celebração. Nossa turma de três – Chula, o fotógrafo e eu – já ganhou novos integrantes, que se juntaram ao bonde e acompanham a peregrinação pelos bares. Ela pede o coquetel Pan, da carta de Grecia Vascal, com tequila, soda de pera e jalapeño.
A não ser pelo olhar cuidadoso do fotógrafo Gus, a turma se distrai no clima de balada do Cortina. Chula, alheia ao agito, bate um longo papo com Marcelo Sarti, um dos sócios do bar. Ainda há lugares para ticar na nossa lista, traçada antecipadamente, na volúpia de rodar o máximo de lugares no espaço de tarde/noite. Entregamo-nos, porém, ao destino.

Intermezzo: Mercado das Flores do Arouche
E o destino tem das suas. A mixologista e consultora Suemi Uemura manda uma mensagem, sem saber de nada que acontecia ali perto. Pensa em ir ao Infini, bar cheio de luzes escondidinho atrás do salão do tradicional La Casserole. “Estamos por perto, nos vemos em breve!”, respondemos. O Infini é justamente uma das casas que têm carta assinada por Chula.
Antes da saideira, Chula para no Mercado das Flores do Largo do Arouche com a amiga Amanda Fuccia, que havia se juntado ao grupo nos Arcos. Amanda é quem faz os arranjos florais e outras peças de decoração do bar do Municipal. Presenteia Chula com um belo ramalhete e os demais integrantes da trupe ganham saquinhos com pétalas de rosas para um banho energizante. Não que fosse necessário qualquer tipo de descarrego. Já tínhamos a alma lavada.

Gran Finale: Infini Bar

Não cobrem da reportagem a descrição dos coquetéis provados no Infini. A essa hora, a atenção é engolida pela festa. Chula pede à equipe que sirva uma degustação da carta, baseada numa pesquisa sobre botânicos brasileiros. A cena agora é relaxada e a bartender argentina, mais uma vez, dirige seus atores. “O teatro salvou minha vida”, filosofa. “Se minha mãe não tivesse me colocado naquelas aulas, talvez eu estivesse morando na mesma cidade, levando uma vida pacata.”
O movimento é necessário: “Odeio rotina, não quero estar no mesmo lugar todos os dias”, diz Chula. Sempre pronta para novas aventuras, conta, em segredo, alguns de seus planos. Obedientes à mestra, não os revelamos. Talvez num próximo episódio. “Foi tão bom, né? Em que bares vamos no próximo roteiro?”

