OS 7 MENORES E MAIS ÍNTIMOS BARES DE COQUETELARIA DE SÃO PAULO (DOS PEQUENOS AOS MINÚSCULOS)

Por Sergio Crusco

O ser que ama coquetelaria, fã no duro, na batata, gosta de balcão. É ali que vê de perto o trabalho dos bartenders, confere a seleção de bebidas da casa e, em contato mais íntimo com o profissional de bar, surgem lembranças de coquetéis obscuros, vindos do passado, rola de conhecer os drinks autorais da casa ou até pintam ideias de novas receitas.

Quando o bar é pequenino, a interação costuma acontecer de maneira mais próxima. Não apenas pelo espaço exíguo, que permite o papo mais íntimo (não apenas entre você e o bartender), mas pelo ambiente tranquilo da maioria desses lugares.

Foi pensando nesse aconchego e na troca de ideias em mão dupla, dos dois lados do balcão, que os mixologistas Gabriel Szklo e Gabriela Pássaro criaram o Pininha, perto da extinta casa mãe, Pina Drinques, na Barra Funda. É um dos mais pequetitos de São Paulo, com capacidade para apenas 10 pessoas.

“Criamos um lugar para atrair o cliente que tem interesse em bebidas e coquetéis, e quer fugir do lugar-comum. Não é preciso ser um expert em drinks, mas é legal quando a pessoa se propõe a ser estimulada e a descobrir sabores diferentes”, diz Gabriel.

Há outros bares assim na cidade. Charmosos, aconchegantes, com foco na mixologia de qualidade. Alguns bem pequenos, outros minúsculos. Mas não é preciso ter um alto repertório etílico para frequentar os minibares. Não são lugares de gente besta que se gaba de sua esperteza sensorial. Como toda boa casa de coquetéis, há sempre opções mais fáceis de beber, para quem é da leveza.

Vitrus indica 7 entre os menores bares de São Paulo, em ordem decrescente de tamanho – pequenos na área, grandes no sabor. Com sugestões de um par de drinks de cada: uma receita “facinha” e outra “complicada”.

LÁGRIMA

Capacidade: 20 pessoas

Poltroninhas gostosas para bater aquele papo à meia luz no Lágrima
(Foto: Tales Hidequi)

O Lágrima é mais ou menos o que os antigos chamariam de inferninho – só de que no modo chique. Fica escondido atrás de uma pesada cortina de veludo, num canto do hall do Edifício Renata. Quem entra no prédio nem nota que há um bar por ali.

Escurinho, envolvente, com poucos lugares no balcão, também tem sofazinhos e poltronas. É pedida certa para levar o crush, curtindo um som eclético, na base do vinil. Trocando beijinhos, melhor ainda.

Os coquetéis inventivos de Ciro Tupi e Gunter Sarfert cuidam de elevar a alma e o ânimo. A carta brinca com sabores do dia a dia, desde o café da manhã até a hora de fechar a noite com um trago digestivo.

Manjar, do Lágrima, lembra o doce de coco da vovó em forma líquida
(Foto: Tales Hidequi)

Fácil
Manjar é uma alquimia bem divertida que lembra a sobremesa da vovó, mas sem dulçor excessivo. Tem rum lavado em coco, ameixa, mel e baunilha. Tudo bem redondo, delicinha de beber.

Complexo
Yokai tem uma pegada untuosa e encorpada, umami total, vinda da mistura de bourbon lavado na manteiga noisette, amaro, o esquisitão Jerez Oloroso, licor de umê e Cynar. É para quem não tem medo de ser feliz com um drink repleto de informações e em perfeito equilíbrio.

Lágrima Bar / Rua Major Sertório, 95, Vila Buarque / @lagrima.bar

THE PARLOR

Capacidade: 18 pessoas dentro + 10 na calçada

O mixologista Lucas Felix em ação no pequenino e aconchegante The Parlor
(Foto: Reprodução Instagram)

The Parlor tem bem aquele clima de bar de bairro, onde dá vontade de interromper o caminho de casa para um coquetel no fim de um dia cheio de afazeres. Para quem não faz questão de estar do lado de dentro (ou dá de cara com o bar lotado), o papo rola na calçada.

Os mixologistas e sócios Gui Ferrari e Lucas Felix criaram um ambiente leve e descoladinho para quem ama coquetéis e costuma prestar atenção em detalhes fundamentais: boa execução e hospitalidade. Casa pequena e coração grande.

Há muitos coquetéis ácidos e frutados, bons para uma tarde de calor e para os encontros que avançam até mais tarde. Mas quem prefere tragos austeros não sai de lá na frustração: a carta de clássicos (e o que não está nela) satisfaz os fãs dos drinks estilo pancadão.

Rye + Maçã + Cominho é um hit do The Parlor: frutadésimo, refrescante e herbal
(Foto: Reprodução Instagram)

Fácil
Rye + Maçã + Cominho mostra como um long drink refrescante pode ser gostoso sem ser bobo. A mistura de uísque de centeio (rye), fernet, soda de maçã e xarope de cominho traz fruta, acidez, madeira, um toque vegetal marcante e um tiquinho de amargor.

Complexo
Ostello é um dos autorais mais intensos da casa, com pisco, amaro, café e vermute. Aveludado e encorpado, mescla dulçor e amargor de um jeito bem elegante.

The Parlor / Rua Deputado Lacerda Franco, 248, Pinheiros / @theparlor.sp

THE PUNCH

Capacidade: 15 pessoas

A estupenda coleção de garrafas do The Punch
(Foto: Rubens Kato)

The Punch é outro lugar para quem gosta de conversar sobre coquetéis, descobrir alquimias mixológicas e, sobretudo, bebê-las. O bar de Ricardo Miyazaki tem uma soberba coleção de garrafas, várias delas raras no Brasil.

Uma visita ao bar pode começar com um papo sobre o que se gosta ou não de beber, com os bartenders indicando direções para seus sentidos, dentro e fora da carta de coquetéis estabelecida.

Ricardo inspirou-se no jeito intimista dos bares que conheceu no Japão e aplicou com bastante sucesso o estilo em São Paulo. A casa, que vive lotada, funciona em dois turnos e exige que se faça reserva.

Kuro Bunê é a pedida para quem quer potência, no The Punch
(Foto: Rubens Kato)

Fácil
Quem quer muito frescor vai sorrir com Green Garden, sour cocktail à base de gim, com limão siciliano, xarope de açúcar demerara e folhas de shissô macerado, o que amplia o poder refrescante e herbal do trago.

Complexo
Um dos coquetéis mais emblemáticos do The Punch é Kuro Bunê, mix de shochu (destilado japonês), bourbon, vermute tinto, umehsu (licor de ameixa) e Peychaud’s Bitter.

The Punch Bar / Rua Manuel da Nóbrega, 76, Paraíso / @thepunchsp

FEL

Capacidade: 13 pessoas

O balcão do Fel acompanha as linhas de Oscar Niemeyer no Copan
(Foto: Ana Weber)

Uma das coisas mais gostosas de se fazer em São Paulo, para quem ama coquetéis e pode se dar ao luxo de sair do trabalho até 5 da tarde (ou não trabalhar), é chegar ao Fel no horário de abertura. Num dia útil.

Explica-se: o lugar, escondido numa das curvas do pátio do Edifício Copan, lota muito rapidamente e não aceita reservas. Essa primeira hora também é perfeita para entrar em conversas mixológicas com o estudioso bartender Fábio Dias, que busca receitas perdidas em livros de coquetelaria antigos, alguns editados no século 19.

Para quem é fã de um balcão, o Fel é oasis de tranquilidade (às vezes, a paz é lamentavelmente interrompida por alguma voz mais alta e sem noção). Mas vá na fé: trata-se de um dos maiores pequenos luxos da coquetelaria paulistana.

Canaletto: a elegância dos coquetéis com espumante, no Fel
(Foto: Ana Weber)

Fácil
Canaletto, receita publicada em 1929, traz licor de laranja, licor de cereja e espumante brut. Um dos melhores exemplos de como um bar hard liquor pode se preocupar com quem gosta de bebidas mais delicadas.

Complexo
Aconquija, de 1955, é mescla de uísque escocês, vermute tinto, vinho do porto e anis. Uma sinfonia de sabores que abarca dulçor, amargor, amadeirado e o inconfundível toque anisado – tudo boiando num corpo denso e sedoso.

Fel / Avenida Ipiranga, 200 (Copan), República / @fel.sp

ANARCORD CAFFÈ

Capacidade: 11 pessoas dentro + 4 pessoas na mesa do parklet

O clássico balcão com ares de dolce vita do Caffè Anarcord
(Foto: Reprodução Instagram)

Embora com capacidade exígua, o Anarcord costuma lotar e virar rave, dependendo da quantidade de clientes e da temperatura da noite. Talvez a menor rave que você já tenha visto, mas ainda assim bem animada.

A pegada da casa, com drinks a cargo da mixologista Michelly “Mia” Rossi, é brincar com sabores italianos e criar um clima la dolce vita, despretensioso e folgazão, sem perder o charme.

O pequenino bar e café fica coladinho a uma unidade do italiano Bottega Bernacca – seus drinks também são servidos nas mesas do restaurante. Você pode passar lá para um café (o Anarcord abre pela manhã) ou, num momento de extrema indulgência, sorver um coquetel no meio da tarde.

O untuoso e complexo Prosciutto, do Caffè Anarcord
(Foto: Divulgação)

Fácil
Adomo Highball é a versão de luxo do estilo, com uísque The Macallan Double Cask 12 anos, bourbon Maker’s Mark, maçã, chá preto, licor amaretto e água com gás. Frutado e cheio de sutilezas aromáticas, desce que é uma gostosura, para quem tem bolso gordo (custa R$ 80).

Complexo
Prosciutto é um dos coqueteizões da casa, com bourbon, Jerez, brandy, azeite de oliva, vermute tinto, bitter de cacau e presunto parma. Untuoso, profundo, cheio de camadas de sabor, é feito para beber devagarinho.

Caffè Anarcord / Rua Padre João Manuel, 826, Jardins / @caffeanarcord

PININHA

Capacidade : 10 pessoas

Para quem gosta de supresas, o balcão do Pininha revela bebidas pouco prováveis
(Foto: Reprodução Instagram)

Um dos menores botequinhos chiques da cidade, filho do Pina Drinques, é porto seguro para quem quer sair do óbvio e buscar novos sabores. A decoração e a arquitetura são simples: aqui as estrelas são as taças e o que vai dentro delas.

Os sócios e casal Gabriel Szklo e Gabriela Pássaro também são pesquisadores de receitas esquecidas da mixologia clássica e reinventam antigas misturas à sua moda. Há várias releituras do Bloody Mary e do Martini.

Há também alguns ingredientes diferentes do comum: cachaças especialíssimas de pequenos produtores, destilados latino-americanos e outros borogodós. A conversa com os bartenders, cheios de repertório etílico, leva a descobertas supreendentes.

No Pininha, o Jurubeba Martini, revoluciona, com cachaça, a tradicional família de coquetéis
(Foto: Reprodução Instagram)

Fácil
Embora a maioria dos drinks do Pininha esteja mais para a categoria categoria “complicada”, Julia’s Margarita pode parecer mais familiar para quem curte sours. Tem tequila, agave, pimenta jalapeño, limão-taiti e azeitona.

Complexo
Jurubeba Martini é uma das invenções que abrasileira uma das mais nobres famílias de coquetéis. Tem cachaça prata, vermute seco e salmoura de jurubeba, formando um conjunto seco, salino e amargo.

Pininha / Rua Brigadeiro Galvão, 549, Barra Funda / @pininha.drinques

SHIRO

Capacidade: 8 pessoas (10 configuram superlotação)

O jeito cool de ser do Shiro, o menor bar de coquetelaria da cidade
(Foto: Reprodução Instagram)

O mais pequetito dos bares de coquetelaria de São Paulo também é o mais cool, zen ou outro nome que se possa dar a um lugar que transmite tranquilidade. Fica no andar superior do japonês Kuro e, desde sua inauguração, levanta a bandeira da coquetelaria de precisão, com muito sabor.

Quem assina a nova carta do Shiro é Mia Rossi, que assumiu todo o serviço de mixologia das casas do Grupo Bernacca, com escala em Barcelona, onde uma unidade da Bottega Bernacca foi inaugurada.

Mia interpretou o Shiro apostando em bases etílicas e ingredientes orientais, como whiskies japoneses, shochu, lichia e outros elementos da cultura nipônica. “Me pautei principalmente pelo que é consumido no dia a dia pelo público japonês, e não necessariamente pelos turistas, para trazer mais autenticidade ao bar”, diz.

Tisuchi tem salinidade e umami, no Shiro
(Foto: André Yamamoto)

Fácil
Os coquetéis de Mia para o Shiro, de maneira geral, foram pensados na leveza e no tal drinkability. Mas um drink fácil de beber pode ser bastante complexo, como o Henkay Haiboru, com whisky Yamazaki, mezcal, bitter umami, sal maldon e club soda. Mescla salinidade, umami, toques defumados e vegetais e a presença marcante do malte.

Complexo
Embora mais pancadinha, Tisuchi desce bem, com seu mix de vodca, shochu, shiro missô e água de tomate. Notas salinas e de umami também têm vez aqui.

Shiro / Rua Padre João Manuel, 712, Jardins / @shirococktailbar