Um bate-bola com Rachel Louise e três de seus bons drinks o Baio do Hotel W São Paulo
Um dúvida existencial levou Rachel Louise ao bar. Não que precisasse afogar mágoas ou tomar coragem para ter um papo sério com alguém. A conversa era consigo mesma: continuar trabalhando como professora de filosofia no ensino médio ou abraçar uma profissão que poderia trazer mais cor e sabor à vida. “Depois de 20 anos dando aula, eu não via mais perspectiva de crescimento na carreira. Queria algo mais divertido, que trouxesse inquietação”, explica.
Naquele momento, já frequentava os bares bacanas da cidade, como Frank e SubAstor. Um belo dia, ao beber um New York Sour, veio a luz: como seria trabalhar no bar? Passando em frente ao extinto e diminuto Apothek, tomou coragem e pediu ao dono da banca, Alê D’Agostino, uma vaga como estagiária, que cumpriu durante pouco tempo. Alê sugeriu que ela começasse no salão, até chegar ao bar e ver se a parada correspondia a seus sonhos de mudança.

(Foto: Sergio Crusco)
Assim foi: Rachel arranjou emprego no Ritz original, da Alameda Franca (que lamentavelmente será derrubado para a subida de mais um prédio), e enfrentou certos perrengues que hoje considera, no mínimo, divertidos. “Eu não tinha noção alguma de gastronomia, não sabia o que era linguini”, ri. O trajeto imaginado por Alê, porém, se concretizou: foi para o bar, do Ritz para o Hotel Renaissance e, em seguida para o estrelado Tuju, que considera “um parque de diversões dos ingredientes”.
Hoje, com alguns prêmios na bagagem, é head bartender do Hotel W São Paulo, onde comanda os bares do Baio, do L40 e do Yoso, cada um com uma proposta diferente de gastronomia e coquetelaria. Uma carreira metrórica, se levarmos em conta que Rachel começou no bar em 2019. Sua pesquisa com insumos brasileiros continua e pode aparecer num drink que mistura guaco, goiaba e bourbon, numa receita que lembra um caldo de sopa ou na cuca de banana em estado líquido.
Vitrus Indica bateu um papo com Rachel Louise no balcão do Baio escolheu três coquetéis da carta como destaque.
Um drink?
Dry Martini. É simples, clássico, clean, direto e cada bar tem sua versão.

(Foto: Ambitious Studio Rick Barrett/Unsplash)
Onde beber um bom Dry?
Em casa, no Santana, no Coda.
Qual a proporção ideal do seu Martini?
60 ml de gim, de preferência Martin Millers, e 7,5 ml de vermute seco. Às vezes, um twist de limão ou uma azeitona. Mas Dry Martini é como religião, cada um tem a sua.
Um coquetel que não gosta de servir?
Piña Colada.

(Foto: Reprodução Instagram)
Uma cidade para beber?
A Cidade do México vive um momento muito bom de criatividade. Oaxaca é outra cidade mexicana muito legal de visitar. Tudo tem gosto de México, mas eles conseguem traduzir os diferentes ingredientes regionais de um jeito cosmopolita. Singapura é outra inspiração para para países quentes como o nosso.
Um bar no México?
Handshake Speakeasy.
Um bar em São Paulo?
Caledonia, Santana, Tan Tan… Tudo perto de casa. O trânsito de São Paulo é inimigo da vida boêmia.

(Foto: Reprodução Instagram)
Um bartender?
Takuma Watanabe do Martiny’s, em Nova York. Ele sempre apresenta coquetéis bem balanceados e versões surpreendentes de Martini. No Brasil, Livio Poppovic, do Coda. Ele tem um lindo senso de hospitalidade, com uma postura discreta e polida. É um show vê-lo trabalhando.
A quem você gostaria de servir um coquetel?
Gosto quando um chef de cozinha gosta de um coquetel meu. Ou quando o general manager do hotel aprova. Aí, sinto que venci.
A quem não gostaria de servir um coquetel?
Pessoas assediadoras, geralmente bêbadas. Já fiz muita caipirinha de água para quem ássou da conta. São 10 ml de destilado, o resto é completo com água, a pessoa nem percebe e você vai levando a diplomacia de balcão.
Três drinks do Baio, por Rachel Louise

(Foto: Léo Martins/Divulgação)
Brodo (R$ 60) é um coquetel potente e aveludado, que mistura o maltado de um scotch 12 anos à salinidade e o corpo de um brodo de verdade. A alquimia se completa com nibs de cacau, vermute tinto, amaro Averna e solução salina.

(Foto: Léo Martins/Divulgação)
Cuca de Banana (R$ 75) é uma opção mais doce, porém ainda encorpada, com mix de bourbon, single malt, banana e licor de avelãs. Ótima pedida para finalizar um jantar com a culinária de raiz gaúcha do chef Tuca Mezzomo no Baio.

(Foto: Léo Martins/Divulgação)
Guaco (R$ 65) leva a erva que os antigos usavam para crises de pulmão, infusionada com goiaba, com base de bourbon e acréscimo de amaro. Mais um item luxuoso e com base na gastronomia e na farmacopeia do Brasil.
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