Um roteiro de coquetelaria e comidinhas em Santos, da Ponta da Praia ao Centro Histórico

Por Sergio Crusco

Quem disse que Santos não é boa de drink? Há um bom tempinho, é possível fazer um belo roteiro etílico – e guloso – pela cidade praiana, com duração de um final de semana ou com mais tempo para ir e vir, descobrindo seus segredos, que não são poucos. Tá, você vai dizer, mas Santos é lugar de praia, de verão. O que vou fazer ali no meio do inverno?

Nem só de sol vive a cidade. Muito menos de chope e batata frita nos bares da praia. O que é muto bom, mas não é o nosso caso agora. O intenso crescimento da gastronomia local faz com que haja cada vez mais opções para todas as estações, desde os restaurantes tradicionais, como o velho e glorioso São Paulo, no Gonzaga, com mais de 80 anos de história, à cozinha contemporânea e inventiva de chefs como Dário Costa, que comanda o Madê e a deliciosa lanchonete Paru, no mercado de peixes. Tem Revo Manufactory também, um dos cafés mais gostosos de estar, cheio de quitutes e pães de fermentação natural, montado na garagem de um típico predinho santista. Bobagem esperar o calor chegar para dar um pulo por lá. Quer ver?

Vitrus Indica, além dos já citados, um roteiro por alguns dos melhores points de coquetelaria, comidinhas e bons pratos de Santos. Tem restaurante retrô, quiosque na praia, casarões históricos ocupados por empreendimentos modernos, bar com clima de speakeasy, rooftop para ver o mar. Dentro de tudo isso, tem drinks para todos os estilos: sours levinhos e frescos, caipirinhas reinventadas com charme, batidas e ótimas pedidas sem álcool, para quem volta dirigindo.

Tocaia

No Tocaia, a caipirinha de caju turbinada com vinagre, o ambiente retrô do salão e a super paella que serve até três pessoas
(Fotos: Divulgação)

O Tocaia tem aquele ar retrô de restaurante do começo do século 20, em que homens engravatados se reuniam para discutir negócios ou conversar fiado. Só que a pegada na cozinha e no bar é moderninha. O chef Vinicius Martins Pereira reinventa clássicos da culinária ibérica, mistura com um pouco de Itália e Brasil e atende a quem passa lá para um chope e uma porção, estilo botecagem, para quem quer um almoço executivo rápido ou uma refeição completa, com entrada, prato principal e sobremesa.

No bar, Igor Stetner Barreto interpreta a multiculturalidade da casa com uma carta bem variada, que agrada a quem quer drinks frescos e fáceis de beber, até tragos mais complexos, para quem quer abrir o apetite para petiscos e pratos opulentos. Ou simplesmente curtir o clima e o vai e vem de pessoas na casa, sempre agitada. Fica na Ponta da Praia, antes um bairro pacato, agora um dos novos points da gastronomia santista.

Dicas Vitrus
As caipirinhas têm toques inventivos e fogem do lugar comum. Caju Curtido é uma das mais surpreendentes: o caju é preparado com a técnica de shrub, que obriga as frutas a passarem um tempo mergulhadas no vinagre. Isso dá outra camada de acidez ao drinque, que ainda leva dois limões (taiti e siciliano), açúcar demerara e pode ser servida com cachaça ou vodca. Qualquer que seja sua escolha, é mandatório comer os pedaços de caju curtido para completar o prazer.

Lunar, da seção de autorais, é um coquetel para quem gosta de intensidade e complexidade. Tem whisky em infusão de toranja e tomilho-limão, Lillet Blanc, Campari e bitter de laranja. Um aparetivo daqueles que dá um up e prepara a gula, com dulçor, amargor e acidez bem balanceados.

Se quiser petiscar, prove a croqueta de rabada com maionese de pimenta de cheiro ou o crocante de camarão, com os bichinhos empanados e fritos, servidos com maionese de siracha e guacamole na folha de arroz frito com brotos de coentro. Para grandes fomes, a paella marinera com camarões na brasa, aioli de limão e pó de kimchi serve duas ou três pessoas, dependendo da voracidade de cada uma.

Tocaia Bar e Restaurante / Avenida Rei Alberto I, 280, Ponta da Praia / @tocaia_bar

Rabbit Caipirinha na Praia

No quiosque de Rogério Rabbit, fazem sucesso a caipirinha de café e a batida de caju, preparada tradicionalmente, com cachaça e sem leite condensado
(Fotos: Sergio Crusco e Divulgação)

Depois de rodar o Brasil como bartender e consultor, o mixologista Rogério Rabbit voltou à terra natal para trabalhar do jeito que mais lhe convém: na praia, de camiseta, bermuda e chinelo. Seu quiosque Rabbit Caipirinha na Praia também foge das convenções e serve caipirinhas e batidas reinventadas ou à maneira clássica, se for esse o seu desejo. É o lugar perfeito para um break no meio da tarde ou para o happy hour, preparando a alma para mais alguns drinks no roteiro que segue.

Dicas Vitrus
Se você é da caipira, pode se surpreender com as receitas como a Caipirinha de Café, que leva um float de café adoçado com açúcar rosado sobre a mistura de cachaça e limões taiti e siciliano. Flor de Sal é outra receita maluca, com sal na borda do copo, azeitonas e um fio de azeite por cima. Sempre que chegar por lá, pergunte a Rabbit se há alguma invenção sazonal. No Natal passado, teve caipirinha de panetone.

Embora crie ondas bem diferentes, Rabbit é radical em alguns pontos: caipirinha é com cachaça. No tocante às batidas, dispensa o uso de leite condensado e faz tudo à moda antiga. Prepara as misturas com antecedência e esse descanso é que vai garantir corpo e cremosidade à bebida. Se quiser tirar a prova, vá de batida de caju (olha ele aí de novo). Enquanto você sorve a mistura de suco, cachaça e açúcar, vai mordendo o cajuzão curtido que vem boiando no copo.

Rabbit Caipirinha na Praia / Canal 2, cruzamento entre Avenida Bernardino de Campos e Avenida Presidente Wilson, Gonzaga / @rabbitcaipirinhanapraia

1906 Rooftop

O casarão do 1906 Rooftop e suas delícias: o Santos Sour, coquetel com café, e o risoto cremosão com frutos do mar
(Fotos: Divulgação)

O 1906 foi montado num belo casarão que já serviu de inspetoria para imigrantes que embarcavam no porto de Santos. Se você têm avós ou bisavós imigrantes, que chegaram a Santos na primeira metade do século 20, é quase certeza que passaram por lá depois do desembarque. Hoje o imóvel abriga gastronomia, drinks e baladas ao ar livre no terraço. É mais um espaço flex para almoço, happy hour, jantar ou agito com grupos de samba e música pop no topo. Legal para uma parada depois ou durante um passeio pelo Centro Histórico da cidade.

Quem comanda o bar é o santista Bruno Caldeira, que já passou por várias casas na baixada e encontrou, no 1906, um lugar aberto à suas invenções. Muitos dos coquetéis vão na linha refrescante. A cozinha do chef Hélio Marques mistura influências culturais dos povos que aportaram por ali e traz de volta alguns clássicos dos restaurantes santistas do passado.

Dicas Vitrus
Santos Sour é outro coquetel indicado a quem ama café, ingrediente histórico de Santos (ainda mais ali, pertinho da Bolsa do Café, onde os grãos eram negociados). Tem cachaça infusionada com café, limão e um toque de redução de cerveja. É de um doce-ácido bem equilibrado e chega cremosão – vai ser difícil ficar num só. Outro destaque da carta de Bruno é a seção de spritzes, que ele também reinventa. Prove o Açaí Spritz (vermute de açaí, limoncello, limão siciliano e espumante) ou o Brasiliano (vermutes bianco e dry, água tônica e finalização com limão e laranja).

Quem foi criança em Santos lembra bem dos almoços de final de semana com filé de pescada empanado e frito, servido com molho de tomate e camarões e arroz soltinho. Hélio resgatou a receita, que andava meio esquecidona, e rebatizou-a como Pescada Praiana. Outra opção para os fãs de comidas do mar é o Risoto Caiçara, com moqueca de lula e camarões crocantes. Quem vai botecar tem à disposição um desfile de petiscos. O arancini com tomate seco e mussarela é dos mais populares.

1906 Rooftop / Rua Riachuelo, 3, Centro Histórico / @1906rooftop

Urbana Coquetelaria

Karai Pyrahé, um dos coquetéis da nova carta do Urbana, com seu ambiente moderninho e delícias como o hotdog de linguiça suína no pão de cará
(Fotos: Murilo Gonçalves e Divulgação)

Ainda no centro de Santos, pegadinho ao 1906, o Urbana também intervém no térreo de um prédio histórico com charme e ares de lounge, na base da penumbra e das luzes negras. Lugar perfeito para curtir com o date ou ir com turmas. Há noites animadas por DJs e dá até pra dar uma dançadinha, dependendo do fervo da noite. Quem quer estar no seu cantinho, arranja mesinhas e sofás para ficar de boa.

Apesar da modernidade visual, o Urbana têm feito um trabalho de resgate de culturas culinárias e etílicas ancestrais. O menu de Victoria Diene e a carta de drinks de Rafael Souza são baseados em ingredientes brasileiros e em preparos das vovós (tem pastel de angu, ora essa), com técnicas avançadas de gastronomia e mixologia.

Dicas Vitrus
A carta de drinks de Rafael é bem vasta em opções autorais e atende a perfis diversos. Karai Pyrahé (do tupi, senhor da noite) é um trago austero com whisky, vermute de café, aperitivo de raízes brasileiras, conhaque e licor de cacau. Denso e complexo, é para beber devagarinho. Uma opção mais solar é Sateré-Mawé (lagarta de fogo), com cachaça ouro, fernet, licor de jambu, suco de limão e tintura de guaraná. Um sour com dulçor, amargor, acidez e tremor do jambu.

Para quem curte boa coquetelaria sem álcool, tem a seção MPB – Medicina Popular Brasileira, inspiradas em canções clássicas. Sangue Latino tem cordial de açaí salgado, soda de hibisco, maracujá e aceto de vinho branco. Carcará, primeiro hit de Maria Bethânia, é interpretado com chá de louro, limão, gengibre e tintura de catuaba.

Assim como a carta de coquetéis, o menu convida a várias visitas ao Urbana, por sua vastidão e diversidade. Hoje vamos indicar dois sanduíches preparados com um orgulho santista: o pão de cará. Acontece que o cará foi deixado de lado no preparo desse pão fofinho e saboroso, de casca escura e crocante, mas jovens da gastronomia local reinseriram o ingrediente original na receita. Com ele, Victoria bolou o Pesca e Carreto, com carne de porco e camarão com dendê. E o Doguinho Caramelo, com linguiça de porco defumada, purê de batata, ketchup e maionese artesanais, vinagrete e batata palha feita na casa (não a de saquinho, tá?).

Urbana Coquetelaria / Rua Frei Gaspar, 12, Centro Histórico / @urbanacoquetelaria

Hideout Speakeasy

Chocolate 70, um dos coquetéis mais potentes do Hideout Speakeasy, ao lado das crocantes coxinhas de porco
(Fotos: Divulgação)

O Hideout Speakeasy é naturalmente lembrado quando se fala na nova coquetelaria de Santos. A casa de Aline Araújo e Marcelo Malanconi foi (e ainda é) o endereço que colocou a cidade na rota da alta mixologia. Não dá para considerar um roteiro completo de drinks na cidade sem uma passada no Hideout para pelo menos um trago.

Difícil é ficar num pedido só (quer dizer, problema nenhum). O lugar, instalado no porão de uma casona antiga do Gonzaga, é aconchegante, vibrante, convidativo. Ficar por ali, no balcão ou numa das mesinhas altas, curtindo coquetéis lentamente e ouvindo jazz & blues, é uma delícia. Ainda tem um quintalzão coberto, com mesas e sofás, para quem prefere ir em turma.

Dicas Vitrus
O Hideout não é exatamente indicado para quem quer “drinks de verão”, embora haja opções refrescantes na carta. Para quem quer entrar no clima, sugerimos coquetéis robustos de autoria do bartender Esteban Ovalle. Se não tem medo de viagens complexas, prove Umami Cogu, com tequila branca infusionada em shitake, shimeji e alga kombu, vermute tinto, Jerez Oloroso e grana padano como guarnição. É umamíssimo, como promete o nome.

Se curte drinks intensos e aveludados, Chocolate 70 traz amargor, dulçor e toques amendoados e defumados. Sua alquimia tem whisky escocês, Cynar 70, vermute tinto, licor de amêndoas e bitter de cacau. É um trago positivamente chique. Um clássico da casa, desde a primeira carta, é Torta do Sevilha, que reproduz a tradicional receita da lanchonete Sevilha, fundada em 1962 no Gonzaga. Não se iluda com a promessa doce do nome: o coquetel é uma versão diferentona e bem equilibrada do Old Fashioned, com bourbon lavado na mateiga e na banana, groselha, açúcar e bitters.

Para beliscar, há tábuas de frios, brusquetas, pastrami defumado com vermute dry, sandubas e outros petiscos. Se a gordice bater forte depois de um drink pancadão, não perca a crocantérrima porção de porcoxinhas, empanadas com farinha panco e servidas com molho de gorgonzola.

Hideout Speakeasy / Rua Bahia, 116, Gonzaga / @hideout.speakeasy

Hideout Fizz

Colher de Sol é um hit sem álcool do Hideout Fizz, no topo do Comfort Hotel, na Ponta da Praia
(Fotos: Divulgação)

Chegamos ao fim do nosso roteiro nas alturas, de volta à Ponta da Praia. Hideout Fizz, irmão mais novo do Speakeasy, tem pegada totalmente diferente. Fica no topo do Comfort Hotel, com vista incrível para o estuário de Santos e para o ir e vir de navios. Tem clima de juventude dourada, com noites animadas por bandas de blues e DJs.

A carta de Wallace Kauã, Fox Vergara e Pedro Martins traduz o clima praiano com muitas opções leves e refrescantes, além de uma boa seção de drinks sem álcool para quem não quer sair de lá mareado. O cardápio vai na base das comiditas frescas e pouco calóricas, para quem prefere manter a linha.

Dicas Vitrus
Tramonto é um drink bem solar, com rum lavado em coco, Aperol, mix de maracujá e limão-taiti. Tem cor e sabor de pôr do sol. The C Word é uma opção salgadinha e refrescante com vodca, cordial de pepino, solução salina e água tônica. Para quem cortou o álcool ou está tomando antibiótico, Colher de Sol é uma pedida bem boa, com cordial de casca de laranja e hortelã, limão, água tônica e uma colherinha de geleia de laranja para acompanhar.

Da seção de comes, sugerimos o gravlax de salmão com inspiração mixológica: o peixe vem curado no gim com especiarias e é servido com sour cream e picles de cebola roxa. Para quem não é das carnes, tem o sanduíche de mussarela de búfala com tomatinhos confitados, rúcula e azeite de ervas, servido na focaccia aquecida com manteiga de alho assado.

Hideout Fizz / Av. Rei Alberto I, 177, Cobertura, Ponta da Praia / @hideout.fizz