Nova carta de drinks do Caledonia Whisky & Co. brinca com sentimentos complexos, traduzidos em poucas sílabas nos idiomas de diversos povos

Por Sergio Crusco / Fotos: Mauricio Porto

Tente traduzir em uma palavra o sentimento de prazer que se tem ao ver alguém se dando mal. Consegue imaginar? Os alemães têm um único vocábulo para expressar essa emoção pouco nobre: schadenfreude. Agora explique ao alemão o que é saudade. Talvez ele tenha dificuldade em entender uma palavra que reúna tantos significados: abandono, falta, melancolia, vazio, ausência, nostalgia, suspiros profundos… Yearning, do inglês, talvez seja o termo que chegue mais perto da nossa saudade, mas ainda não é beeeem assim.

Qualquer que seja a discussão semântica, enrolar a língua, discutir o significado das coisas e os modos de falar de cada povo – tudo pode ser mais gostoso no balcão ou nas mesas do Caledonia Whisky & Co. (um dos lugares bacanas da nossa lista de onde levar o amigo estrangeiro). Sinesthesys, a nova carta de coquetéis do bar, brinca com palavras e expressões dificilmente traduzíveis de vários idiomas do planeta – aquelas que condensam, em pouquinhas letras, sentimentos vastos e complexos, para o bem ou para o mal. E que quase não têm equivalentes em outras línguas.

Contam os envolvidos que o processo foi longo, gerou muita diversão e alguns bate-bocas (existe essa palavra em outro lugar do mundo?). Durante seis meses, o chefe de bar Alison Oliveira e os sócios do Caledonia, Mauricio Porto e Guilherme Valle, vasculharam o Google em busca de expressões únicas de diversos países. Foram definidos 16 termos, 12 para o drinks elaborados pelo trio e mais 4 para as entradas criadas pelo chef Rodrigo de Rizzo. E ainda uma cor que representa cada sentimento.

Vitrus Indica 6 dos novos coquetéis e uma comidinha da nova carta, explicando seus significados e contando um pouco sobre o sensorial de cada trago.

Kilig

Kilig: frutado, fresco e suave

Sabe quando sentimos aquele calorzinho no coração na hora em que o crush manda uma mensagem carinhosa do nada? Kilig, da língua tagalo, das Filipinas, descreve essa sensação de leveza, tremedeira, riso bobo quando vivemos algo particularmente fofo, romântico, adorável.

Kilig, o coquetel, transmite bem essa fofura. É leve, delicado, frutadinho, fresco, tchutchuco, totoso! Vem com oolong milk tea infusionado no cheescake, fermentado de morango, mix de ácidos, açúcar demerara e uma levíssima espuminha de morango por cima. Pode ser pedido com vodca ou na versão zero álcool. Olha que graça.

Mono No Aware

Mono No Aware: poder refrescante com whiskies e banchá

Aceitar em paz a transitoriedade das coisas, ainda que com uma ponta de melancolia, não nos impede de ver o mundo de forma empática. A expressão japonesa mono no aware traduz a sensação de enxergar beleza na impermanência da vida – a nossa e a de todos seres.

Mono No Aware é outro drink delicado, porém com mais poder refrescante. Tem blend de whiskies japoneses, soda de banchá com nibs de cacau, umeboshi e caramelo, fake lime juice e bitter de cacau. As notas do chá, do cacau e do malte ficam bem evidentes e ele também é flex. Pode ser servido com chá lapsang souchong no lugar do álcool.

Mudita

Mudita: solar, intenso e com toques de especiarias

É o contrário de querer que o outro se ferre. No sânscrito, mudita revela a felicidade que temos em ver o progresso ou a felicidade alheia. É a anti-inveja, a empatia total. No budismo indiano, é a prática da compaixão sem limites que pode ser cultivada por qualquer ser humano (ainda que tenhamos dúvidas sobre isso).

Mudita é solar, frutado, encorpado, redondão, fácil de beber e de gostar. A nota tropical do cordial de abacaxi contrasta com os aromas da pimenta-da-jamaica e da canela, em composição com whisky double cask, e jerezes Oloroso e Cream (mais docinho). Vem com um shot de scotch, redução de abacaxi e Angostura para você ofertar a quem quer bem.

Sankofa

Sankofa: harmonia complexa para beber devagarinho

Na língua twi, do povo akan, em Gana, a expressão sankofa nos convida a retornar ao passado, mesmo que a experiência seja dolorosa, para buscar o conhecimento esquecido e construir o futuro. Tem forte significado para os povos que tiveram sua cultura interrompida pela colonização.

Sankofa é um coquetel sério e complexo, com bourbon, vinho do Porto branco, Jerez Fino, Campari lavado em óleo de coco e cevada, amaro, tintura de pimenta calabresa e bitter de cacau. Amargor, dulçor, picância, oleosidade, fruta… Muitas camadas que nos levam a filosofar. Para beber devagarinho.

Whakamā

Whakamā: doce, amargo, defumado

Não se trata de um sentimento legal. Whakamā é a hora em que nos enxergamos menores, tímidos, envergonhados, sem conexão com as pessoas, em dúvida, no modo “o que eu faço da minha vida?”. Quem nunca? A expressão vem da língua maori, povo originário da Nova Zelândia.

Só que o drink é lindo, chique, um dos melhores da nova carta do Caledonia. Potente, vem com rye (whisky de centeio), Calvados (destilado de maçã), whisky turfado, vermute dry, Cynar e bitter de cardamomo. Cruzamento entre o Sazerac e o Vieux Carré, traz dulçor, especiarias, muita madeira, amargor e o toque defumado da turfa.

Eeriness

Eeriness: aroma de mar num Martini diferente

Eeriness, do inglês, é outra sensação meio esquisita. Manja aquele medo que não sabemos de onde vem, uma estranheza sinistra, tipo premonição? Imagine-se num porto da Inglaterra, na madrugada adensada pelo fog, sentindo o cheiro da maresia, num frio de lascar. É mais ou menos por aí.

O aroma de maresia é justamente a primeira sensação de Eeriness, o drink. O bitter com elementos da culinária do mar traz a sensação de que o coquetel foi curtido em algas e sargaço. Seco na boca, revela o que realmente é: um Martini com gim e vermute, apesar de a cor verde emprestada da espirulina enganar nossos sentidos. Eerie!

Py’aguapy

Py’aguapy: coxinhas de pato crocantes por fora e cremosas por dentro

Vem do povo guarani, da nossa América do Sul, a expressão py’aguapy, que traduz uma sensação bem gostosa. Quer dizer paz, tranquilidade, ausência de medo ou de raiva, harmonia, zero conflitos. Dê de presente à pessoa querida essa entrada da próxima vez que levá-la ao Caledonia. Sinal de que está tudo py’aguapy entre vocês.

As coxinhas verdes têm recheio de pato confitado e desfiado – casquinha crocantérrima e interior cremosão. Vêm acompanhadas de maionese com capim-limão e limão siciliano, para dar a chuchada básica. Difícil ficar numa só porção.