Banqueta Bar transforma lendas do folclore brasileiro em coquetéis cheios de sabor

Cartas de coquetel que contam histórias muitas vezes caem numa conversa sem sentido (ou viajandona) que mais confunde do que ajuda quem quer beber. Cardápios que pecam pela omissão da descrição sensorial dos drinques também não costumam ser muito certeiros, desviando o público da lista de receitas autorais e aproximando-o da pedida da moda. Muito perecoteco de um lado, pouca informação de outro. Tem quem faça diferente e acerte em todos os quesitos, sem esquecer do principal motivo da existência de um bar: servir bons drinks.

Contos de Dentro: Histórias Líquidas do Brasil Profundo, a nova carta do paulistano Banqueta Bar, pertence à categoria dos acertos. É bonita, diversa, divertida, didática, fácil de ser consultada e absolutamente coerente com o conceito do bar: fazer coquetelaria com ingredientes de várias regiões do Brasil.

Em sua busca por brasilidade, Igor Bauer, mixologista e sócio do banqueta, encantou-se como o livro Abecedário de Personagens do Folclore Brasileiro, da jornalista e escritora Januária Cristina Alves. Lá estava a inspiração para continuar seu trabalho de pesquisa dos biomas nacionais e ter múltiplos insights para a criação de novos drinks. Só havia um problema: que lendas, encantamentos ou monstrengos escolheria para traduzir, em coquetéis, a história e a região de cada personagem, entre mais de 140 verbetes?

“Meu primeiro filtro foi escolher lendas brasileiras, que não foram trazidas de outros continentes. Num segundo momento, pincei dois personagens de cada região, de preferência não do mesmo estado”, ele explica. Desafio final e mais complicado: encontrar ingredientes que tivessem a ver com a história de cada um desses cidadãos e, claro, que funcionassem dentro da taça, em harmonia com outros elementos.

A carta, belamente ilustrada por Cezar Berje (que trabalhou no livro de Januária), é de fácil leitura e traz descrições precisas sobre o caráter dos drinks (se é seco, cítrico, amadeirado, herbal, frutado, adocicado). O nível de álcool é dividido em três níveis, para que se possa decidir entre os mais levinhos e os mais pancada. E é uma delícia saber a história dos seres fantásticos que habitam seu copo enquanto se viaja pelos sabores. Taí o storytelling que funciona: é lúdico sem ser bobo, vem junto com cultura, informação e propósito.

Vitrus Indica 5 dos 10 coquetéis autorais da nova carta do Banqueta, contando a história de seus personagens e o motivo para se apaixonar por certas monstruosidades – só que em estado líquido.

NORTE: Onça-Boi

A lenda
Temida pelos caçadores nas florestas do Acre e Amazonas, a Onça-Boi caça em dupla. Suas pegadas são redondas e pesadas, como as de um boi. Quando a presa sobe na árvore, acreditando estar segura, uma vigia e a outra descansa. A Onça-Boi vence pelo cansaço e não erra.

O coquetel
Onça-boi (R$ 45) é cítrico e aromático com sua mistura de cachaça prata com jambu, cordial de tucupi, Drambuie, limão e perfume de priprioca. Tem notas salinas e terrosas do tucupi, o jambu traz uma leve dormência e a acidez faz o conjunto brilhar. O corpo é denso e untuoso, mas garante frescor.

Nordeste: Cabra Cabriola

A lenda
Criatura temida do folclore nordestino, a Cabra-Cabriola é uma espécie de Bicho-Papão que ronda as noites, buscando crianças desobedientes. Sua lenda mistura medo e encanto: um monstro que bota fogo pelas narinas e de olhar feroz que engana suas vítimas imitando o chamado da mãe.

O coquetel
Cabra Cabriola (R$ 52) é um dos coquetéis mais intensos da nova carta do Banqueta, indicado a quem quer potência aveludada. Tem cachaça PX, Campari, amaro e licor de jenipapo, numa sinfonia que mescla dulçor, amargor, fruta e muita personalidade. O chocolatinho que vem como guarnição harmoniza bem com a receita.

Sudeste: Chibamba

A lenda
Figura que atravessou o Atlântico nas memórias africanas e ganhou novas formas em Minas Gerais. Para alguns, o Chibamba é um fantasma que anda envolto em uma longa esteira de bananeira assustando crianças que não param de chorar. Para outros é força antiga da natureza, rei da selva e dos animais encantados.

O coquetel
Quem curte drinks com café pode dar um tempo do Espresso Martini e cair no encanto do Chibamba (R$ 48). Sua alquimia tem whisky irlandês, licor de café, licor de banana e catuaba (não a dos bloquinhos, mas a da destilaria Geest, das boas). É equilibrado, com dulçor bem colocado e um final persistente.

Centro-Oeste: Tibarané

A lenda
Dizem que, quando a noite cai no Mato Grosso e o vento sopra entre as árvores, ouve-se uma voz grossa pedindo fumo. É o velho Tibarané, espírito das matas e guardião dos caminhos escuros. Quem oferece o que ele pede ganha proteção. Quem se recusa tem companhia indesejada até o amanhecer.

O coquetel
Outro drink para quem gosta de bebidas mais encorpadas, o Tibarané (R$ 52) tem bourbon, moonshine com erva mate e eucalipto, açúcar demerara e um perfume de uísque defumado para finalizar. É uma interpretação bem cuiriosa do Old Fashioned, com uma ponta de frescor vinda do eucalipto e outra de amargor, vinda do mate.

Sul: Teiniaguá

A lenda
No Cerro do Jarau vive uma princesa moura trazida ao Brasil pelos europeus e transformada em lagarto pelos índios. Coragem aos homens que buscam as riquezas em suas terras pois Teiniaguá habita as cavernas da região, ela é a guardiã dos tesouros escondidos. A lenda de Teiniaguá traz histórias de mistério, beleza e de amor proibido.

O coquetel
Frutadésimo, Teiniaguá (R$ 47) é mescla de gim com camomila, licor de mel de bracatinga, cordial de uvaia, limão e cidra de maçã para finalizar. Tem borbulhas, é refrescante, elegante e faz bonito na taça, com seu amarelo intenso. Seu dulçor é expressivo, mas está longe de ser um coquetel desequilibrado.

Banqueta Bar
Moema: Avenida Cotovia, 619
Vila Madalena: Rua Aspicuelta, 202
@banqueta.bar

PS: Outras obras consultadas por Igor Bauer para criar Contos de Dentro foram 100 Melhores Lendas do Folclore Brasileiro, de A. S. Franchini, Viagem pelo Brasil em 52 Histórias, de Silvana Salerno, Contos Gauchescos e Lendas do Sul, de Simões Lopes Neto, e Bestiário Brasileiro, de Luiz Antonio Simas.

Ilustrações: Cezar Ferje/Divulgação / Fotos: Divulgação