O 5 drinks clássicos mais vendidos nos bares de alta coquetelaria de São Paulo (e a história de cada um deles)

Há algum tempo estivemos acostumados a medir a temperatura das tendências da coquetelaria brasileira de acordo com dados estrangeiros. A pesquisa da Drinks International, publicada anualmente, ranqueia os 50 drinks mais vendidos no mundo e é um dos mais respeitados radares do mercado global. Embora alguns (poucos) bares brasileiros sejam consultados nessa estatística, será que ela conversa com nossos gostos e modas, com o que acontece, de fato, no nosso cenário etílico?

“Sempre me incomodou como o mercado local usa esses dados como se expressassem o que acontece aqui”, diz o publicitário Marcelo Sant’Iago, criador da empresa TragoDados. Para desenhar um perfil de consumo mais real no Brasil, ele lançou o Cocktail Trends Report, começando com uma amostragem de 18 bares de alta coquetelaria em São Paulo, com dados dos drinks clássicos mais vendidos em 2025.

“A ideia foi fazer uma radiografia do que acontece no topo da pirâmide da coquetelaria, começando por São Paulo. O relatório será anual e deve englobar outras cidades brasileiras nas próximas edições, gerando um painel mais amplo”, explica. Os bares consultados foram selecionados pela sua relevância, pela quantidade de premiações, pela admiração dos consumidores, da indústria de bebidas e dos próprios bartenders.

Vitrus Indica recebeu esses dados em primeira mão e conta um pouco da história de cada um dos 5 primeiros colocados. Temos mais informações interessantes da TragoDados. Em breve contamos outras novidades.

A título de curiosade, os top 5 clássicos globais no ranking da Drinks International são 1. Negroni 2. Old Fashioned 3. Margarita 4. Espresso Martini 5. Daiquiri. Em São Paulo, a coisa muda de figura.

1. Fitzgerald

O Fitzgerald do Caledonia Whisky & Co.
(Foto: Mauricio Porto)

Fitzgerald é o coquetel clássico mais vendido nos bares chiques da cidade, deixando a onda do Gim Tônica lááááááá para trás. Se você perguntar a um bartender como a moda começou, será difícil encontrar resposta. Foi uma bomba que estourou, como dizia Rita Lee em seu velho rock’n’roll. Marcelo Sant’Iago aponta que ele ganha disparado dos outros drinques da lista e há um bom motivo para seu sucesso por aqui.

Temos preferência por coquetéis que misturam doçura e acidez (alô, Caipirinha!) e o Fitzgerald é exatamente isso: gim, limão siciliano, açúcar e bitter Angostura. Dale DeGroff, o bartender superstar que o criou no final dos anos 1990, nada mais fez do que acrescentar o bitter a uma receita básica de Gim Sour. Essa adição, porém, trouxe mais profundidade à receita, um pouco mais de corpo e um toque de amargor.

2. Negroni

O Negroni servido no The Punch Bar
(Foto: Rubens Kato)

Há muita controvérsia sobre a origem do Negroni. A história mais contada é a de que ele teria sido inventado pelo bartender Fosco Scarselli, no Casoni Bar, em Florença, no ano de 1919. Fosco teria acatado o pedido do Conde Camillo Negroni para reforçar seu Milano-Torino (mistura de Campari com vermute) com algo mais alcoólico. Meteu gim no meio e a coisa fez sucesso. Muitos historiadores da mixologia, incluindo Dale DeGroff, tomam a historinha por lenda.

Outras evidências dão conta de que foi o General Pascal Comte de Negroni, um francês, quem criou o Negroni – na África. Mais referências à mistura de gim, vermute tinto e Campari aparecem em antigos livros de mixologia com nomes distintos: Camparinete ou Campari Mixte. A primeira receita com nome Negroni é publicada em 1949. Antes disso, em 1947, o cineasta americano Orson Welles citou o Negroni numa crônica para o jornal estadunidense Coshocton Tribune: “Os bitters são excelentes para o seu fígado, o gim é ruim para você. Eles se equilibram”.

3. Penicillin

O Penicillin do Picco
(Foto: Tales Hidequi)

O Penicillin é outro clássico moderno, bolado pelo mixologista australiano Sam Ross em 2005, no bar Milk & Honey, de Nova York. Sam queria dar um upgrade na receita do Gold Rush, sour com gim, xarope de mel e limão siciliano criado no mesmo bar alguns anos antes. Considerava o Gold Rush um drink meio bobo e foi mexendo nele, primeiro trocando o bourbon por scotch, uma base mais seca. Adicionou o xarope de gengibre, para criar mais camadas de sabor e, por fim, sapecou um tiquinho de whisky turfado por cima, o que garante o aroma e o saborzinho defumado do coquetel.

Cá no Brasil, o Penicillin começou a ganhar popularidade antes da pandemia. No auge da clausura, empresas de delivery de coquetelaria fizeram kits para o preparo da receita em casa, como todos os ingredientes necessários, incluindo um pequeno borrifador com whisky defumado. Ele sobreviveu a esse período triste da nossa história e taí, todo prosa, em terceiro lugar da lista de mais vendidos.

4. Dry Martini

Martini: um clássico com infinitas variações
(Foto: Eduard Pretsi/Unsplash)

Martini não é um coquetel, mas um estilo. Uma base destilada (gim) e um ingrediente vínico (vermute) formam a base desse estilo e isso pode levar a infinitas interpretações – o que dá tanta graça a essa família de drinks. Acredita-se que o Dry Martini, como conhecemos hoje, evoluiu, desde o século 19, a partir do Manhattan (bourbon e vermute tinto), passando pelo Martinez (gim e vermute tinto) e pelo Marguerite (gim, vermute seco, licor de laranja e bitters). Todos eles são Martinis até hoje.

Hoje entende-se um Martini clássico composto por gim e vermute seco, mas as quantidades dos ingredientes podem variar bastante e existem mil invenções. Nos bares modernos tem Martini com cachaça no lugar do gim, com Jerez no lugar do vermute, com blends de vermutes tinto e seco, com vermute doce, com ingredientes salinos como salmoura de azeitona ou água de picles, com elementos perfumosos como anis… Bobagem ficar num perfil só e não se abrir para o mundo de possibilidades que o estilo permite.

5. Bitter Giuseppe

Trinca Giuseppe, releitura do Bitter no Trinca Bar
(Foto: Divulgação)

Eita, mais um clássico moderno está entre os mais pedidos nos bares de alta coquetelaria de São Paulo. Bitter Giuseppe é o mais novinho da turma. Foi criado em 2007 pelo bartender Stephen Cole no The Violet Hour de Chicago. A mistura de Cynar, vermute tinto, suco de limão e bitter de laranja ganhou a fama engraçada de “coquetel de hipster” e ultrapassou fronteiras de estilo de vida para se tornar um queridinho no Brasil, já ganhando algumas releituras nos nossos bares.

Um dos baratos do Bitter Giuseppe é o fato de ele não ter destilado em sua composição, o que o torna menos alcoólico. Também pesa menos no bolso e, se você pegar o jeitinho, é um coquetel fácil e gostoso de preparar em casa. Refrescante, um tiquinho doce, um tiquinho amargo, fácil de beber e ótimo para servir aos amigos numa festinha.

Foto de abertura: Negroni da Praça São Lourenço (Divulgação)