DE TAÇA EM TAÇA: Casa Almeida Barreto, dona do melhor vinho tinto brasileiro de 2026, aposta no frescor e faz tudo diferente
Um papo sobre vinhos, destilados e outras taças cheias por Sergio Crusco
Antes de ter seu Cabernet Franc apontado como o melhor vinho tinto brasileiro de 2026 pelo Guía Descorchados, Gabriel Barreto passou por algumas crises de incerteza. Não que um prêmio, por si e por mais importante, dissipe todas as hesitações de uma existência. Mas ajuda a entender como certos desvios de rota podem levar a terrenos férteis. Gabriel estudou engenharia, largou, formou-se em direito, montou escritório na Faria Lima. Deixou tudo para trás ao apaixonar-se pela paisagem de Espírito Santo do Pinhal e pela vontade de fazer vinhos na divisa entre São Paulo e Minas Gerais.
O sonho não era só seu. A família acalentava a ideia, ainda mais radical, de mudar-se para Portugal e produzir vinhos no Alentejo. Ao conhecer a região da Serra da Mantiqueira e ao provar um Syrah da pioneira sudestina Vinícola Guaspari, seus olhos brilharam. Gabriel e o pai, Carlos Barreto, passaram um ano em busca de terra até encontrarem em Albertina, Minas, um pedaço de chão não muito grande e não muito pequeno, a cerca de 1200 metros de altitude, suficiente para por em prática o que haviam desenhado na imaginação. Fincaram ali a bandeira da vinícola Casa Almeida Barreto.

(Foto: Divulgação)
“A ideia era fazer vinhos com frescor, eu não queria fazer ‘vinho de empresário’, tratar aquilo como se fosse commodity. As razões que me levaram a fazer essa mudança profissional não tinham necessariamente a ver com dinheiro, mas com a vontade de levar a vida no campo. Fiquei encantado pela região, pela arquitetura colonial de Espírito Santo do Pinhal. Hoje entendo que dei uma romantizada na história, que não era bem assim que a banda tocava”, conta Gabriel.
O tapa da realidade veio na primeira safra de Syrah vinificada, em 2021. A bebida resultou pesada, carregada de madeira, um vinho muito extraído e tânico – exatamente o estilo careta do qual Gabriel queria fugir. Para não cair de novo na armadilha das idealizações que levam a consequências equivocadas, foi estudar. Fez mestrado no Instituto de Agronomia de Montpellier e cursos em Bordeaux, Turim e Lisboa, além de estagiar em produção de vinhos no Douro.

(foto: Rafaela Rossi)
“Entendi quais eram os passos necessários para chegar ao que eu queria, era preciso conhecer todas as etapas de sua produção, da planta à garrafa, para conseguir imprimir um estilo. Vinho, apesar se ser negócio, não é control c e control v.” Para fazer a diferença, investiu em outras variedades, ainda pouco comuns na vitivinicultura do sudeste brasileiro. Apostou uma boa quantidade de fichas na Cabernet Franc, é o primeiro produtor de Cinsault do país e arriscou-se a fazer um vinho branco de maceração (o tal vinho laranja) com a emergente uva Viognier.
Gabriel rebate a noção de que a Serra da Mantiqueira é o Rhône brasileiro: “nada a ver, isso é mito”. Munido de conhecimento técnico, e com a ajuda do enólogo uruguaio Alejandro Cardozo como consultor, passou a investigar o que seu terroir tinha de peculiar e a explorar possibilidades adequadas ao solo e à terra de que dispunha. Queria afastar-se do copia e cola que colocava (e ainda coloca) a Syrah como a grande estrela da vitivinicultura de dupla poda no sudeste, embora também cultive e vinifique Syrah – só que de um jeito diferente.

(Foto: Lori Paula)
Ele marca 2023 como a safra da virada, em que começou a produzir bebidas adequadas ao seu gosto e afinadas com uma tendência de consumo cada vez mais prevalente: vinhos mais leves (mesmo os tintos), com menos extração, maior fluidez e, portanto, com mais capacidades gastronômicas. Elegantes, enfim. Com a parabólica da Casa Almeida Barreto captando o espírito do tempo, não demorou que a crítica especializada percebesse que, entre tantos Syrahs mais do mesmo do sudeste, ali havia algo fora da curva.
O Guía Descorchados, organizado pelo jornalista chileno Patricio Tapia, pontuou Paralelas Cabernet Franc 2024 de Gabriel como o melhor tinto brasileiro na edição de 2026. Ainda elegeu a Casa Almeida Barreto como vinícola do ano. Foi com certa surpresa que o mundo do vinho recebeu a notícia: Patricio não costumava dar muita bola para os vinhos do sudeste, chegou a criticar o apego brasileiro ao uso excessivo de madeira (chamo esses vinhos ultraamadeirados de “gaveta que o marceneiro acabou de entregar”). Em sua avaliação, cravou: “A Casa Almeida Barreto está na vanguarda da viticultura tropical brasileira e seus vinhos são puro frescor”.

(Foto: Divulgação)
Gabriel também recebeu a notícia com surpresa. Patricio (ou alguém de sua equipe) não visitou a vinícola, como costuma fazer com boa parte dos produtores que avalia. “Não tive como seduzi-lo com nossa paisagem de montanhas”, ri o produtor, que apenas enviou garrafas para a apreciação da equipe de Descorchados. Ganhou pontuação acima de 90 com outros rótulos de seu portfólio.
Para quem quiser conhecer as paisagens que seduziram Gabriel, a fazenda da Casa Almeida Barreto está prestes e receber visitantes, numa cozinha de fogo que receberá eventos, degustações, encontros com chefs e outros acontecimentos. Quem resolver aparecer lá de surpresa encontrará um espaço de recepção com loja e. além dos vinhos, o café cultivado ali mesmo. Boa parte da produção de café da Casa Almeida Barreto hoje é exportada, mas há grãos suficientes para provar ali ou no wine bar/loja da vinícola Espírito Santo do Pinhal, espaço que ganha agito com noites especiais de música ao vivo ou discotecagem com vinil.
O que provar

(Foto: Divulgação)
Paralelas Cabernet Franc 2024 – tem explosão de frutas vermelhas no aroma, com um toque floral. No paladar, as frutas se repetem com um quê mentolado e de especiarias e um corpo elegante, de taninos macios. O frescor de vinho, de acentuada acidez, é preservado pelo trabalho cuidadoso na adega, em que apenas 5% do líquido descansa em barricas. O vinho fica um ano em tanques de aço inox antes de ser engarrafado.
Paralelas Cinsault 2025 – o primeiro Cinsault brasileiro é um tinto estruturado e ao mesmo tempo delicado. Mais uma vez, é um vinho de alto frescor e com protagonismo da fruta, em especial morangos e framboesas. O Vale de Itata, no Chile, ficou famoso por causa da Cinsault, entre outras variedades. Agora é a vez de provarmos do que ela é capaz no terroir da Mantiqueira. Outro rótulo destacado pelo Guía Descorchados, recebeu 92 pontos.
Lado B Rosé 2024 – um rosé delicado, como deve ser, porém longe de ser bobo, elaborado com Syrah, Cinsault, Mourvèdre e Chardonnay. O frutado e o frescor prevalecem, como já é assinatura da vinícola, mas há profundidade de aromas e sabor, e um corpo um pouco mais intenso e polpudo que o distancia dos rosés frugais. Altamente gastronômico, deve brilhar em harmonizações com comidas do mar, como a moqueca baiana e o bobó de camarão.
Lado B Viognier Laranja N.V. – ainda são raros os vinhos laranja na vinicultura do sudeste e a Casa Almeida Prado aposta na Viognier, uva que também se deu bem na região e vem ganhando força no Brasil e na América do Sul. Tem notas de mexerica, algo herbal e uma certa força de taninos, obtidos pela maceração das cascas. A vinícola também vinifica a Viognier no modo branco. O rótulo da vez mescla as safras 2024 e 2025.
Lado B Pet-Nat Rosé 2025 – pét-nats, os espumantes rústicos de fermentação única, podem ser um desafio a quem faz e a quem bebe. Gabriel Barreto e o enólogo Alejandro Cardozo domaram a imprevisibilidade do estilo num vinho limpo no aroma e no sabor, interpretando a Syrah do sudeste de um jeito pessoal. Fruta, mais uma vez, é a palavra-chave desse vinho, que tem cremosidade e boa acidez intensificada pela graça das borbulhas. Uma delicinha.
