Novidades e tradições na Jesuíno Pascoal, a prainha mais quente e gulosa de Santa Cecília e de São Paulo
Por Sergio Crusco
Dizem que um dos traumas do paulistano é não ter praia. Talvez por isso, quando algum lugar é agitado, com um bar atrás do outro, muita gente na calçada, falação e alegria, logo apelidamos o pedaço de prainha. Há várias espalhadas em diversos bairros de São Paulo. Uma das mais turbinadas, pelo alto teor de gente interessante e maravilhosidade gastronômica e etílica, é a da Jesuíno Pascoal, ruinha de uma quadra em Santa Cecília. Tem acarajé, cerveja, comida de boteco, vinho, sushi, coquetel. Tem mistura de Brasil, Japão, Itália, boteco desencanado, boteco chique, restaurante cool – uma boa mistura que bem representa o entrelaçamento de culturas na cidade. Território indicado para levar um amigo estrangeiro e se gabar da nossa bossa.
Claro, nem sempre foi assim. Quando os mestres-cervejeiros Leonardo Soares e Marco Bernardo procuravam um lugar para montar a Cervejaria Central, que antes tinha uma kombi amarela como ponto volante de vendas, penaram com o preço dos aluguéis em bairros agitados da cidade. Em 2017, encontraram o imóvel ideal numa Jesuíno desabitada gastronomicamente (só havia um boteco na esquina) e plena de pacatez. “A rua era um breu, escondida, tivemos medo de que ninguém aparecesse, mas os vizinhos foram os primeiros a abraçar a ideia de ter uma cervejaria por perto”, conta Leo.

(Foto: Reprodução Instagram)
Em 2019, com a chegada do Tabuleiro do Acarajé, que funcionava em outro imóvel micro ali por perto, a coisa começou a tomar forma. No ano seguinte vieram Koya88 e Bagaceira, e mais um bar, e outro… Quando deu-se conta, estava formada a prainha. Porém, mais do que uma série de estabelecimentos alinhados, a Jesuíno Pascoal é uma comunidade de empresários. São festeiros, organizam feiras, têm um São João dos bons (pena que já passou), um ajuda o outro com perrengues na prefeitura, um vai fazer comida no bar do outro em datas especiais. Ninguém é visto como concorrente, pois de qualquer forma, todos os pontos bombam.
“Sempre incentivamos a vinda de novos comércios e acompanhamos de perto o crescimento da rua como um polo de comida e cultura em São Paulo. Buscamos criar projetos em conjunto com os nossos vizinhos, pois acreditamos que uma rua viva, movimentada e segura ajuda a todos os negócios locais. Temos muito orgulho da nossa história e de fazer parte da evolução da Rua Jesuíno Pascoal”, diz Miri de Castro, sócia da irmã, Fafá da Bahia, no Tabuleiro do Acarajé.
Vitrus Indica e comenta os bares da Jesuíno Pascoal mantendo uma ordem: começando pelo lado ímpar, depois atravessando a rua e voltando pelo lado par. Só pra organizar o texto, tá? Porque o barato da Jesuíno é chegar sem muita programação e ir pulando de lugar em lugar. Já podemos dizer que a rua tem algumas tradições, mas os bares e restaurantes do pedaço inventam uma moda atrás da outra.
Bagaceira

(Foto: Tales Hidequi)
O Bagaceira, na esquina com a Frederico Abranches, é a porta de entrada para os delírios etílicos e gastronômicos da Jesuíno Pascoal e sempre está nas listas de melhores botecos da cidade. Um pulo no bar e você já saca a razão: a comida é deliciosa, os coquetéis são frescos e gostosos, tem cerveja de 600 ml e os preços são bons. A alqumia é realizada pelo chef Thiago Maeda e pelo mixologista Thiago Pereira, que dominam boa parte da rua, com auxílio do bartender Augustinho na barra, também criando drinks deslumbrantes.
Dicas Vitrus
O menu e a carta de coquetéis estão com muitas novidades. A bochecha de porco, macia e molhuda, é braseada na cerveja preta e vem com picles de cenoura. Para vegetarianos, tem o quiabo de Seoul, tostado no missô, com pimenta coreana, amendoim e coentro. O torresmo de barriga com umeboshi é um escândalo e o Baga ainda tem um dos melhores bolovos de São Paulo.
Na seção etílica, o novo Garibaldi Turbinado é ultrarrefescante, com Campari, Aperol e soda de laranja e acerola. Desce que é uma beleza. Outra novidade é Coco Loco Daiquiri, com rum lavado no óleo de coco, licor de cacau Royal Charlotte e limão. Para tabelar com os petiscos, também tem um quarteto batuta de batidas: coco, maracujá, café e graviola com hortelã.
Bagaceira / Rua Frederico Abranches, 197 / Santa Cecília / @barbagaceira
Koya88

(Fotos: Tales Hidequi)
Mais um empreendimento de Pereira e Maeda, o Koya88 é meio boteco, meio izakaya, meio restaurante e qualquer desses motivos é bom para conhecê-lo. O bar tem coquetéis mais elaborados do que o irmão Bagaceira e uma cozinha bem mais puxada para a gastronomia nipônica. Tem mesinhas no parklet para quem vai em turma e uns cantinhos mais reservados na parte de dentro, perfeitos para quem quer ficar a dois. O balcão tem vista para o trabalho dos bartenders e do pessoal da cozinha.
Dicas Vitrus
Para começar, a porção de edamame não tem nada da semgracice de soja cozida na água e sal. É puxada numa porção exuberante de manteiga noisette com molho ponzu e sal maldon. Chega tostadinha e dá vontade de lamber o prato quando acaba. Katsu sando é outro clássico da casa: um sanduíche de porco empanado curado no tempero de sal e koji, com repolho, molho inglês e maionese da casa. Para grandes fomes, tem char siu domburi: arroz japonês com porco caramelizado à moda cantonesa, ovo cozido lentamente, cebolinha, redução de shoyu e picles da casa.
A carta de coquetéis do Koya merece várias visitas, por sua extensão e diversidade. Quem é dos drinques refrescantes não deve deixar de conhecer Miss Gueixa, um hit da casa desde a inauguração, com vodca, saquê, cordial de hibisco, laranja kinkan e espuma de gengibre. Uma explosão frutada e floral. Utsuroi é denso, untuoso e alcoólico, com scotch lavado na manteiga noisette, ponzu, umeshu, vermute seco e bitters. Chiquérrimo.
Koya88 / Rua Jesuíno Pascoal, 21 / @koya88
Aconchegante Bar

(Fotos: Sergio Crusco e Divulgação)
O imóvel do Aconchegante havia sido uma lavanderia antes de os sócios – a chef Katia Lyra e o mestre-cervejeiro Leonardo Soares – ocuparem o lugar para transformá-lo em bar. Os donos dos negócios anteriores não se preocuparam em apagar da fachada o letreiro do extinto Aconchegante Bar, que existiu ali na década de 1970. Aconchegante ficou, com sua entrada abertona que confunde o espaço do salão com a calçada – vira uma coisa só. Aqui as estrelas são as comidas de sotaque interiorano de Katia e a coquetelaria cheia de frescor de Caik Lima. Menu e carta de drinks estão com novidades.
Dicas Vitrus
O croquete de carne de panela na cerveja é crocante por fora e cremosísimo por dentro – ótima opção pra começar o papo. Depois você pode partir para a pancetta macia glaceada no caldo de porco e tamarindo, com alho e cebola crocantes e ervas frescas. Se sobrar espaço, peça um principal: arroz atomatado de linguiça com agrião, servido com kimchi de cebolinha, creme azedo, salsa criola e chips de mandioca. Gordice total.
Pisco smash é o drink mais vendido da casa e está na carta desde sua abertura. Vem com pisco infusionado com capim-limão e gengibre, amaretto, hortelã e cítricos. Da carta recentemente lançada, Melon é outro coquetel bem refrescante, com gim, shochu, melão e picles de pepino. Banana Maitai é uma gostosa recriação do clássico tiki com blend de runs envelhecidos, óleo saccarum de banana, maple e bitter aromático.
Aconchegante Bar / Rua Jesuíno Pascoal, 35 / @aconchegante_bar
YūG

(Fotos: Reprodução Instagram)
YūG é o lugar cool da Jesuíno, sem mesinhas na calçada e onde a turma costuma falar mais baixo. Mais um empreendimento da dupla Maeda-Pereira (eita!), é bom para namorar, tratar de assuntos não muito sérios e ser feliz com a excelência nipônica traduzida em sushis e comidinhas que também pegam emprestados ingredientes de outras culturas orientais. Ali funcionou o pizza-bar Krøzta, que não sumiu (aguardem o próximo capítulo).
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A grande pedida são os menus da casa, que podem variar de acordo com os pescados da estação. Koya Especial é suficiente para duas pessoas não muito famintas. Vem com sudakô, spicy edamame, sardinha kabayaki, 5 peças de tataki, bao de black cod, hand roll, 7 peças de sashimi, 4 peças de makimono e uma seleção de niguiris. Se preferir ficar nas comidinhas, há um mundo de entradas apetitosas, como o camarão empanado na farinho panko com maionese picante e os mexilhões ao missô e vinagre de jerez.
Para beber, há uma breve seleção de vinhos e espumantes e uma carta de saquês de vários estilos. O junmai Honkara Madoka é boa pedida, por sua acidez mais alta e pelo umami que harmoniza super com o desfile de quitutes. Se é da cerveja, a leve e seca Supa Dorai também vai abraçar esses sabores. Ela é produzida especialmente para o Koya e para o YūG pela Cervejaria Central.
YūG / Rua Jesuíno Pascoal, 39 / @yugsushi
Cervejaria Central

(Fotos: Divulgação)
A casa pioneira da revolução gastro-etílica da Jesuíno Pascoal também está em clima de novidade, voltando ao passado e olhando para o futuro. Os sócios e mestres-cervejeiros Leonardo Soares e Marco Kito estão refazendo algumas das receitas mais bacanas dos 9 anos de Central e, inventivos que são, bolando novos sabores. As latinhas também ganham outra cara, com desenhos fofos da artista visual Leticia Lasak. É um lugar legal para ir em turma, sentar dentro ou no parklet e deixar a conversinha boa tomar conta.
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Quem é da leveza vai se encantar com a sour da casa, que vai mudando de fruta de acordo com a estação. A bola da vez é o caju e vale esperar o que vem por aí. Outra cerveja sequinha é a witbier Aluá, com abacaxi, gengibre e cana de açúcar, que entra para equilibrar a acidez da receita. Quem é dos estilos mais pancada pode ir num crescendo com a new england IPA Panorama, a IPA Mesmo, a red ale Linha Vermelha e a dry stout. As cervejas são fresquíssimas, produzidas ali mesmo, no fundo do imóvel.
Olha ele aí de novo. Thiago Maeda fechou o Krøzta e levou a marca para o reduto dos parceiros da Central. O que se espera é mais um escândalo de sabor em modo nada previsível. Para quem tem fominha, a pizzeta khachapuri carbonara vem com ovos, bacon e queijo parmesão. Para uma aventura mais pé na jaca, a pizza de padoca tem molho de tomatê e missô, frango, catupiry, bacon, milho e mussarela. Os mais ousados vão gostar da pepperokimchi, com o molho de missô e tomate, fior di latte, kimchi, pepperoni e mel silvestre. Essa esquenta!
Cervejaria Central / Rua Jesuíno Pascoal, 101 / @cervejariacentralsp
Tabuleiro do Acarajé

(Fotos: Reprodução Instagram e Sergio Crusco)
Se tem um lugar prainha total na Jesuíno, é o Tabuleiro do Acarajé, de Miri de Castro e Fafá da Bahia. Ele abre e fecha mais cedo e é perfeito para quem é do dia e quer curtir uma tarde bem temperada com pimenta, dendê e camarão. Seu parklet é um dos maiores da rua e o mais animado, com cadeirinhas de praia onde o povo petisca acarajé e outros quitutes baianos, bebe cerveja ou locupleta a alma com a caipirinha da casa. Uma delícia sentar ali, apreciar o vai e vem das pessoas e contar as últimas.
Dicas Vitrus
Há vários estilos de acarajé: tradicional, vegano (com castanha de caju no lugar do camarão), sem camarão, no prato e médio. Quem não é fã do bolinho de feijão fradinho tem vez com a manjubinha frita com maionese de coentro (sorry para quem não gosta, estamos em território baiano), com a carne de sol com mandioca, farofa e salada ou com os caldinhos de camarão e sururu. Para adoçar a boca, doce de tapioca com ou sem leite condensado.
Para beber, a grande pedida do tabuleiro é a caipirinha de dois limões com rapadura. Tem dose de cachacinha Jangada, cervejas de 600 ml e long necks.
Tabuleiro do Acarajé / Rua Jesuíno Pascoal, 30 / @tabuleirodoacarajé
JoJo Ramen

(Fotos: Angelo Dal Bo e Rafael Salvador)
Com unidades no Paraíso, na Vila Madalena e em Pinheiros, o JoJo Ramen também foi seduzido pela Jesuíno. Fica num imóvel espremidinho e a fila na porta, nos horários bombados, parece rave. Dá para comer em poucas mesinhas na calçada também. A casa da restauratrice Simone Xirata e da sommelière Yasmin Yonashiro em Santa Cecília tem pegada culinária da ilha de Okinawa, com muitas opções caudalosas para saciar a fome e preparar o corpo para mais rodadas etílicas pela rua.
Dicas Vitrus
Para chutar o balde de vez, recomendamos ryukyu ramen, o mais chique do JoJo, com macarrão fino, tarê de shoyu, rafute (barriga de porco lentamente cozida e caramelizada em molho de awamori), ovo marinado, cebolinha japonesa, broto de feijão, blend de pimentas togarashi e conserva de gengibre. Quem não é dos caldos pode preferir os domburi, arrozes com coberturas mil. Chashudon vem com carne de porco, cebolinha e um toque de pimenta coreana gochujang.
A carta de drinks criados por Rodolfo Bob é sucinta e dela destacamos Shisa Bamboo, com awamori, jerez fino lavado no abacaxi, saquê dry e bitters umami e de laranja. Um coquetel seco e gastronômico, que harmoniza com vários pratos da casa, sobretudo os mais gordurosos. Há uma carta de saquês selecionados por Yasmin e cervejinhas delicadas da Japas: uma pilsen com jasmim e uma witbier com gengibre e casca de laranja.
JoJo Ramen / Rua Jesuíno Pascoal, 24 / @jojo_ramen
Elevado Bar

(Fotos: Laís Acsa)
O Elevado Bar passou por uma reforma e voltou em clima de renovação também no cardápio. A casa do sommelier Leandro Mattiuz aposta no conceito vinho, pasta e brasa, com cozinha a cargo do chef Felipe Grecco. O clima é despojado-elegante e é mais um lugar ótimo para impressionar o date. O serviço de sommeliaria é impecável, com dicas certeiras de harmonização, numa casa que privilegia vinhos de pequenos produtores e com uma pegada de fruta e frescor mais moderna.
Dicas Vitrus
O polvo na brasa com molho romesco, aioli e batatas rústicas tem feito bastante sucesso no Elevado. Quem é das massas não pode deixar de conhecer as pastas delicadas e de excelente textura, preparadas de vários modos. O pappardelle com gogumelos na brasa puxados na manteiga e com lascas de queijo tulha é um prato simples, mas de sabor gigante. Assim também é o espaguete com vôngoles, caldo de peixe, salsinha e pepperoncino. Para quem vai com boca de vinho tinto, indicamos a costela assada em baixa temperatura por 24 horas, com purê de abóbora e vinagrete de fradinho.
A carta de vinhos do Elevado está sempre em mutação e, portanto, não vamos indicar rótulos específicos. Há vinhos de todos os estilos e de espírito pouco óbvio. Espumantes finos brasileiros e Champagne. Brancos do Douro e do Reno. Tintos leves da Borgonha ou Malbecs encorpados de Mendoza. É bom ir sem roteiro e se deixar levar pela surpresa.
Elevado Bar / Rua Jesuíno Pascoal, 16 / @elevado_bar
Tem mais!
O agito não para e você pode fazer mais algumas coisinhas bebíveis, comíveis, vestíveis, decoráveis e engraçadas na Jesuíno.

(Foto: Reprodução Instagram)
Macabea Café tem grãos especiais e formas de preparo diversas – os cafés gelados são um must. Os bolos são elogiadíssimos, todos os formigas adoram. Há sempre opções do dia e aguarde chegar a vez do de morango ou do de maçã com ricota. Com inspiração na personagem de Clarice Lispector, o Macabéa tem uma pequena biblioteca para quem quer ler e se descolar do mundo virtual. Rua Jesuíno Pascoal, 36.
Frederica Hamburgueria é o lugar para fomes ogras na prainha. Há vários combos gorduchos, como o Maria Joana, com três hambúrgueres, queijo prato, cheddar, mussarela, bacon, maionese da casa, na companhia de fritas e Coca-Cola. Vegetarianos também têm vez com o hambúrguer de grãos no brioche, acrescido de alface, tomate e mussarela. Rua Jesuíno Pascoal, 38
Clube do Minhoca faz o povo rir com shows de stand up. Dá para curtir alguns drinks básicos como Negroni e Gim Tônica antes das apresentações ou mesmo se você quiser passar por lá só para dar uma bicada. Além da gargalhada, a casa também recebe shows e funciona como baladinha em datas especiais. Rua Jesuíno Pascoal, 77.
Casa Pilar Brechó e Antiquário é indicada para quem, no calor do rolê, resolve dar um tapa no visual ou na decoração da casa. Em dois pavimentos, há roupas antigas charmositas e objetos para renovar o ambiente em modo retrô. Ligue-se na programação, pois rolam apresentações musicais por lá de vez em quando. Rua Jesuíno Pascoal, 62.
